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PROJETO MEMÓRIAS DO ABC
Depoimento de RAUL KODAMA, 87 anos.
IMES - Universidade de São Caetano do Sul, 23 de agosto de 2004.
Entrevistadores: (Não Divulgado no Início)
Pergunta:
Onde o senhor nasceu?
Resposta:
Nasci em São Paulo, na Maternidade São Paulo.
Pergunta:
Seus pais são japoneses?
Resposta:
Meu pai e minha mãe são japoneses.
Pergunta:
Eles vieram para cá em que ano?
Resposta:
Meu pai veio em 1908, na primeira imigração japonesa, meu pai e minha mãe. Quem sabe mais da vida do meu pai é ela, porque o sistema japonês naquela época era severo para qualquer coisa, então os filhos dele, meus irmãos e eu, não tivemos diálogo. Meu pai só falava com a gente da obrigação que a gente tinha de fazer em casa, sobre trabalho, sobre os negócios. A história, a vida da gente, não tinha nada. Não tinha essa liberdade. Depois que eu casei, eu pensei que quando tivesse família não ia criar meu filho do jeito que meu pai me criou, vou criar diferente. Tanto que com meu filho tenho muita liberdade. Depois que meu pai viu a liberdade que eu tinha com os filhos, meu pai achava que a gente era culpado, porque a gente não era como ele. Mas ele nos criou assim e como o senhor quer modificar.
Esposa:
O pai dele, com 13 anos, se educou sozinho, não teve ninguém para orientar. Ele se educou do modo dele e achava que estava certo. Ele teve aquela educação severa, dos pais não conversar com os filhos. Mas não era só japonês, porque outras raças também têm pessoas assim, que os pais não ficam passando a mão na cabeça dos filhos. Hoje não, a mãe e o pai, com toda a liberdade que dão para os filhos, é diferente.
Resposta:
É o sistema japonês. Naquela época meu pai, em vez dele, ele se criou sozinho no meio dos brasileiros, encontrou a casa e ficou lá, mesmo sem falar o idioma, o negócio de alimentação, tudo é diferente. Ele sofreu aqui porque não sabia falar. Tem até uma história que eles andaram contando. Chegaram na fazenda e eles davam sanduíche, mas ele não estava acostumado a comer carne, então ele jogava a carne fora e só comia o pão. E assim era a vida dele. Como meu pai encontrou muita dificuldade para ele se fazer no Brasil, ele pensou que o português é muito difícil, então ele achou que todos os filhos tinham de ser brasileiros. Ele pensava que o japonês é patriota e ele queria que o filho dele fosse, não como japonês, mas como brasileiro. Você sabe que o Brasil é a segunda pátria dele, então ele queria que os filhos dele fossem brasileiros. Tanto é que é difícil você chegar numa família japonesa que tem filhos com nomes japoneses. Primeiro é o nome brasileiro. Eu tenho dupla nacionalidade. Sou brasileiro e japonês, mas eu tirei a dupla nacionalidade depois que eu fiquei maior de idade, de acordo com a lei do Japão. Puseram meu nome em japonês. Eu tenho um nome japonês.
Esposa:
Mas era obrigado. Todo japonês que tivesse família aqui era obrigado a registrar no consulado. Então, registrava o nome japonês no consulado, para eles saberem quantas pessoas tinha de descendentes japoneses no Brasil. Era obrigado até 1933. Quando eu nasci já não era mais. Ele é registrado no consulado, mas o nome dele registrado no cartório aqui é brasileiro, Raul Kodama. E ele tem um nome japonês registrado no consulado japonês. Ele tem dupla nacionalidade por causa disso. A partir de 1933 não precisava mais registrar.
Pergunta:
Depois de 1933, quando começou a guerra, teve uma certa restrição com japoneses e italianos. Vocês se lembram disso?
Esposa:
Foi na época da guerra, com o Japão, Itália e Alemanha como aliados, então os japoneses, geralmente por causa da fisionomia, porque alemão e italiano são quase iguais com o brasileiro, mas o japonês é mais fácil. Tinha várias coisas que a gente não podia fazer. Não podia estudar japonês. Isso eu me lembro que foi em quarenta e pouco, quando o Brasil entrou na guerra. Eu lembro que eu estava estudando japonês na escola e a polícia veio e levou todos os livros, fechou a escola. Nem com os pais não podia falar japonês. A gente conversava, mas não podia. Eles achavam que a gente estava falando mal, mas era conversa só.
Pergunta:
O senhor lembra de alguma restrição com os japoneses?
Resposta:
Eu não fui criado como japonês. Eu fui criado como brasileiro, tanto é que, você é muito nova, mas mesmo nesta época, você já viu japonês engraxate? Eu fui um menino engraxate, moleque de rua. Eu fui criado do mesmo jeito desses meninos maloqueiros, que vivem na roça, menino pobre, engraxate, com a caixinha nas costas, correndo de pé no chão. Eu fui criado assim e não fui criado tipo japonês. Vocês sabem que eu era menino, tinha 10 anos e não sabia o que era japonês? Ninguém me chamava de japonês. Às vezes eu olho o meu neto, um menino pequeno e vejo que ele é sabido. Eu nessa idade, era mais velho que ele, era um menino bobo. Eu era escoteiro com 10 anos e chorei por causa daquele tamborzinho no meio do grupo. Não me lembro da minha primeira professora, porque em 1926 meu pai foi para Presidente Prudente. Chegando lá, não havia vaga em escola, então entrei na escola particular. Era escola de barro, de pau a pique, coberto de barro.
Esposa:
Naquela época a casa dele era pequena. Só tinha uma família de japoneses lá e a família dele. Eram duas famílias e estava começando a cidade de Presidente Prudente. As casas eram de sapé, a escola era montada como ele falou.
Resposta:
Eu não lembro da primeira professora. O nome dela era dona Talia. Eu aprendi o abc com essa professora e em 1927 eu entrei no grupo. A primeira professora do grupo se chamava dona Iaiá. Eu peguei, como naquela época era um menino bonzinho, então tinha certos privilégios, eu entrei e tinha os negócios de escoteiro e eu entrei no grupo. Quando era menino, era meio bobão, o diretor me deu um tambor para eu tocar porque eu gostava. Eu tocava tambor e tinham outros meninos maiores que queriam pegar o tambor. Eu começava a chorar. Aí o servente, senhor Pimenta, me pegou e mandou eu ficar de castigo. Aí que eu berrei mais ainda. O diretor se chamava João Miguel Amaral e ele chegou e me viu chorando. Ele perguntou por que eu estava chorando e falei para ele. Ele chegou na porta, na seção onde guardam o material, onde o senhor Pimenta tomava conta, e ele mandou o Pimenta levar o tambor. O diretor pegou o tambor e falou: Raul, esse tamborzinho é seu. Você pode levar para sua casa. Mas quando a gente for desfilar, você traz o tambor. Eu fiquei contente e levei o tambor para casa. Eu tinha um amigo chamado Manoel, ele era corneteiro e era vizinho da minha casa.
Pergunta:
O senhor morava onde?
Resposta:
Em Presidente Prudente. Eu saía batendo tambor de noite, à tarde, porque durante o dia eu estudava e à tarde eu trabalhava. Meu pai me colocou na oficina mecânica para aprender o ofício. Depois da janta eu tocava tambor e o Manoel tocava corneta e a gente saía tocando na rua. E o pessoal que achava ruim quebrava todas as lâmpadas da rua, porque tinha gente que reclamava. Naquela época eu me lembro que estava eu, Alcides, Rates, Calisto, que tocava caixa, tinha o Manoel, Tofi, César, que tocava corneta e a gente fazia aquela bagunça. Eu fui criado como moleque de rua e fazia todas as travessuras de moleque. Eu também não sabia que era japonês.
Pergunta:
Quando o senhor descobriu que era japonês?
Resposta:
Quando tinha uns 15 anos minha mãe me falou, primeiro porque não tinha escola de japonês, não tinha nada, aí começaram a entrar japoneses no sítio e formou-se uma espécie de uma escola de japoneses.
Esposa:
Era uma república japonesa.
Resposta:
Os meninos começaram a estudar. Minha mãe perguntou se eu queria aprender japonês e eu falei que queria. Eu entrei nessa escola e eles falavam em japonês, mas eu estava pouco ligando. Eles me xingavam, mas eu não ligava porque não sabia. Depois que eu fiquei sabendo, eu quebrei a escola e não fui mais. Mesmo assim eu não admitia ser chamado de japonês. Acho que eu já era grande, com 17 anos, não só eu, como meus irmãos, todo mundo que chamava a gente de japonês, a gente brigava, mesmo que não estivesse ofendendo. Depois fiquei moço, fiz o tiro de guerra, mas a gente não admitia ser chamado de japonês. Eu brigava mesmo. Depois passava um tempo... Eu era forte para brigar, porque eu fui menino, desde pequeno, trabalhando. Depois fui chofer de caminhão. Quando eu era menino eu puxava café. Naquela época um saco de café pesava 25 quilos. Eu era menino, mas carregava o saco. Antigamente chamava Máquina de Café Anhanguera e lá não tinha aquelas máquinas de jogar o café na tulha. A gente subia a escada e jogava o café. Naquele tempo o caminhão que meu pai tinha, até tenho fotografias, pegava 25 sacas de café em coco e quando chegava na máquina de beneficiar café a gente precisava subir a escada para jogar o café na tulha.
Pergunta:
O que é tulha?
Resposta:
É o depósito de café, porque depois da tulha o café ia para a máquina para ser beneficiado, para tirar a casca. Como não tinha o elevador, a gente jogava lá em cima. Quando eu não agüentava subir toda a escada, chegava no meio da escada e parava para descansar. Para eu subir a escada, fazia em duas etapas. Depois eu fiquei forte, fiz o tiro de guerra, mas eu não queria vir embora da roça. Minha mãe falava que eu precisava ajudar meu pai a criar meus irmãos, porque eu era o filho mais velho e eu fiquei. Aí minha mãe adoeceu, minha irmã também veio para São Paulo e eu fiquei lá com meu pai. Mas o gênio do meu pai e o meu não batiam. Quando minha mãe não estava lá, porque quem me salvava das situações sempre era minha mãe, depois eu saí de casa. Para eu voltar, meu pai pensou que eu ia para São Paulo porque minha mãe estava ruim e ia voltar, eu tinha 25 anos, eu trabalhava numa serraria numa cidade vizinha.
Esposa:
Você tinha menos. Com 25 anos você já estava em São Paulo.
Resposta:
Eu sei que não lembro a data. Acontece que eu fui para São Paulo. Quando o empregado foi lá falar comigo, que meu pai tinha falado que eu precisava ir para São Paulo porque minha mãe estava doente, eu peguei o trem e vim para São Paulo. Meu pai pensou que eu não tinha dinheiro, então ele mandou um empregado na estação me levar dinheiro. Mas o trem já tinha passado e ele pegou o automóvel e foi para Espigão, que se chama Mandaguari. Ele chegou lá e o trem já tinha passado. Ele pensava que eu não tinha dinheiro, mas eu tinha, porque eu, para sair de casa, roubei sapato do meu pai, o capote, porque eu não tinha. Quando cheguei em São Paulo só a minha irmã estava doente e minha mãe queria que eu fosse embora. Eu falei que não deveria voltar mais para casa, porque eu sempre apanhava do meu pai. Eu não levantava a mão contra meu pai porque minha mãe sempre falou que o filho não pode levantar a mão contra o pai, e com isso meu pai aproveitava e me batia, eu tinha mais força que ele, mas eu deixava ele bater em mim por causa disso. Enquanto eu estava apanhando, ele batia, mas se um dia eu virar a cabeça e bater no meu pai, ele ia cair, porque meu pai não podia comigo. Eu era mais forte do que ele. Eu era bicho do mato, criado no mato, no serviço pesado, era um japonês forte. Eu não queria voltar mais e fiquei.
Pergunta:
Isso foi antes da guerra? O senhor ficou aqui e como foi depois?
Resposta:
Foi antes da guerra. Eu fiquei aqui nessa firma trabalhando e eu ganhei no bicho. Eu fazia jogo para a minha mãe no interior e quando cheguei aqui não tinha dinheiro. Um dia eu tinha 5 mil réis e fiquei com vontade de jogar e eu ganhei na milhar. Eu comprei terno, sapato, relógio e fiquei 100% cidadão brasileiro. Eu fiquei trabalhando.
Pergunta:
O senhor fazia o quê?
Resposta:
Eu trabalhava numa loja de artigos de presente, na Rua Santa Ifigênia. Eu fui passear no interior no fim do ano e depois voltei. Mas quando eu voltei, o japonês não me queria mais. Ele queria, mas a mulher não queria, porque não sei se eles achavam que eu era muito sabido, porque eu descobri o segredo deles, o código. Toda mercadoria tem o preço de custo e de venda, mas em código. Ele sabe quanto ele pode descontar. Quando a pessoa pede desconto, a gente não podia dar desconto, mas o dono podia. Quando ele via o preço, o código, ele podia fazer o desconto. Eu descobri esse negócio. Eu fiquei trabalhando e eu morava na pensão. Depois ele fez eu morar na casa dele, num quartinho lá. Eu dormia lá e comia. Mas acontece que eu trabalhava até meia-noite, porque tinha de remarcar todos os preços das mercadorias. Eu sabia o código. Nessa de remarcar as prateleiras, tinha até rato morto no meio. Depois que eu arrumei tudo, no outro ano o japonês não me quis mais. Eu fiquei no trem das estrelas. Hoje tem o cavalinho do Duque de Caxias lá. Naquele tempo não tinha. Era uma praça que era meu hotel.
Esposa:
É na Praça Princesa Isabel. Lá é o bairro dos Campos Elíseos, onde era o Palácio do Governo. Só morava gente rica. Hoje não dá para andar, mas antigamente era só gente rica, tanto é que o pedaço tem muitos prédios tombados, porque lá os prédios são históricos. Era a praça da society.
Resposta:
Essa história eu nunca contei para ninguém. Saindo na Rua São Bento tinha uma firma que estava recrutando pessoas para trabalhar em Pedreira. Eu peguei e fui lá para ganhar emprego.
Esposa:
Ele dormia na praça. Mas podia dormir sossegado porque ninguém mexia.
Resposta:
Eu fui lá e me falaram que eu precisava de uma carta de apresentação, mas eu não tinha. Eu fui à casa do sogro da minha irmã, que se chamava Elói, mas naquela época ele não era sogro da minha irmã. Eu fui até a casa desse senhor, ele leu a carta e eu falei com ele. Ele me disse que estava criando cinco filhos, mas achava de dava para criar mais um. Ele falou para eu ficar lá até eu arrumar emprego. Ele sabia que eu fumava e ele ia deixar cigarro e fumo de corda para eu fazer cigarro. Eu fiquei meio acanhado, tive de aceitar, mas eu ficava meio encabulado. Eu me lembro que saí da Rua Sampaio Viana e fui até a Penha andando, porque não tinha dinheiro para pegar bonde, porque no Tatuapé tinha uma cerraria. De todo caso, se eu não arrumar emprego na serraria, eu vou trabalhar a madeira, porque entendia de madeira. Mas não arrumei. Eu fui à Penha e lá tem um pontilhão onde queimam vela. Antes de entrar na Igreja da Penha tem um pontilhão. Eu era católico e fui rezar. Eu rezei lá e um desses panteões estava queimando velas. Eu fiquei sabendo por que eles queimavam velas. Porque um cavaleiro antigo matou um padre que ia rezar a missa. Ele matou o padre, por isso que a turma queima vela. Eu encontrei um amigo do interior e ficamos conversando. Ele falou que não era mais chofer de caminhão, mas relojoeiro, que trabalhava na relojoaria consertando relógios. Eu contei a minha vida e ele me chamou para ir a casa dele. Mas eu não gostei, porque ele morava num casarão e o irmão dele era gerente numa firma e eu fui trabalhar nessa firma. Ele era casado com uma italiana.
Pergunta:
O senhor estava falando do casarão.
Resposta:
Eu não gostei, mas estava num lugar pior. Ele falou para eu dormir lá e no outro dia ele ia falar com o irmão dele, que era gerente de uma firma, para arrumar emprego para mim. Eu dormi sentado na cadeira. Eu arrumei um emprego como carregador, porque não tinha documento, não tinha profissão, não tinha nada. Eu era chofer de caminhão no interior, mas a carta de motorista não valia aqui. Mas como eu trabalhava bem, conhecia São Paulo, já tinha trabalhado na loja e tudo, o patrão falou assim: Esse japonês não é tão burro assim. Acho que ele pensou. Ele falou para mim: Quando terminar o expediente, você vai falar comigo no escritório. Eu fiquei aborrecido, achando que ele ia me mandar embora. Fiquei aborrecido, mas fui lá. Esse japonês trabalhava até dez, onze horas da noite. Às dez horas, ele veio falar comigo, me chamou e falou: Você não tem profissão? Falei que quando morava no interior era chofer de caminhão, mas falei que não podia ser aqui porque precisava estudar. Por que você não estuda? Com o ordenado que eu ganhava não dava para estudar. Ele falou: Você entra na escola que eu pago. Eu entrei na escola. Eu me lembro que foi em 1942 que eu tirei a carta de habilitação nacional. Mas até essa época eu trabalhava com triciclo e não precisava ter carta. Eu andava com triciclo e fiquei conhecendo bastantes lugares porque o meu ajudante conhecia a cidade e eu não conhecia. Depois recebi a carta de motorista e trabalhei uns tempos como motorista. Ele falou para mim que eu não ia mais ser motorista e sim conferente. Eu ia ganhar 600 mil réis. Eu fiquei contente. Eu não sabia o que era conferente, mas sabia que 600 mil réis era dinheiro. Eu ganhava 100. Aí eu fiquei contente. Eu tinha um amigo que se chamava Paulo Tanaka Rubião Cruz. Esse Paulo falou para mim que como eu ia ganhar bem, era para eu entrar na escola, porque ele estudava na Álvares Penteado, no Largo São Francisco, e era para eu entrar no outro ano. E enquanto eu não entrava, eu ficava estudando no livro dele. E assim comecei a minha vida. E quando pensei que ia melhorar a minha vida, fui convocado para o exército.
Pergunta:
O senhor foi convocado e não voluntário?
Resposta:
Não. Quando fui voluntário, eles não me aceitaram. Depois fui convocado.
Pergunta:
O senhor tinha feito o tiro de guerra antes?
Resposta:
Tinha feito em Presidente Prudente. Mas como não tinha certificado, eu fui voluntário para o exército e eles não me aceitaram. Depois, no fim, recebi certificado. Mas já não precisava mais, porque eu fui convocado.
Pergunta:
Como foi, depois que o senhor foi convocado?
Resposta:
Eu estava trabalhando nessa firma, aí fui convocado. Quando estava ganhando bem, pensava em estudar e tudo, mas tinha de ser soldado. Fui ser soldado e ganhar 56 mil réis. Mas como a lei da época, quem era convocado, a firma tinha de pagar 50%, eu ganhava 600, então passei a ganhar 300 da firma e fui para o exército ganhar 56. Aí, com três meses fui promovido a cabo, aí ganhava 342, então, no fim eu ganhava 642 por mês. Pensava que ia melhorar minha vida, que ia estudar, mas fui embora para o Rio de Janeiro.
Pergunta:
Fazer treinamento? Como era esse treinamento?
Resposta:
O treinamento eu fiz aqui, porque nós não tivemos muito treinamento. Depois daqui nós fomos para o Rio de Janeiro. A nossa vida no exército era correr. Correr e subir em navio fantasma.
Pergunta:
Por que era navio fantasma?
Resposta:
Eles requisitaram um navio americano de madeira, e tinha escada de corda e a gente precisava vir correndo e subir aquela escada de corda e descer pelo outro lado. Se você não sabe subir na escada de corda, você não pode fazer nada. Você tem de dar o passo como um animal, porque o animal dá um passo com as patas dianteiras e traseiras. A pata esquerda dianteira dá um passo e com a pata direita traseira ao mesmo tempo. Depois tem de mudar. Assim você sobe. Mas se você pega aqui, depois pega lá, você não sobe, você não acha a corda. A gente precisava aprender. Depois, tinham os toquinhos, que você tinha de passar por cima para depois pular. Tinha uma tábua de madeira que você pulava e eles metralhavam. Você não podia levantar a cabeça, se não você levava tiro de festim na cabeça. A nossa instrução era isso.
Pergunta:
Vocês aprenderam a mexer em armas?
Resposta:
Arma era o fuzil que a gente tinha, um fuzil descalibrado. Não entendia nada de guerra. O nosso fardamento não era adequado para a guerra na Europa. Era cáqui, de brim.
Esposa:
Hoje o pessoal usa.
Resposta:
Era verde oliva. Lá a gente não usava a farda. Era tipo um paletó, que o pessoal chamava de Zé Carioca e a calça. Não tinha aquele negócio de botão. Eu tinha uma fotografia mostrando. Quando a Força Expedicionária foi extinta, eu fui para o Rio de Janeiro, em Santos, para buscar canhão, metralhadora. No meu tempo era um canhãozinho alemão que você desmontava, colocava em cima de um burrinho e subia a serra. Depois passamos para o segundo regimento, fomos para o Rio de Janeiro. Fiquei conhecendo os canhões, como fazia, depois fui para o Rio, estive no barracão da vila militar, depois fomos para Campinas e depois embarcamos para a Itália.
Pergunta:
E como foi o embarque para a Itália?
Resposta:
Foi no Rio de Janeiro. Do dia não me lembro.
Pergunta:
O senhor foi no primeiro escalão?
Resposta:
Não, fui no segundo.
Esposa:
Ele lembra a data.
Resposta:
Fui em setembro.
Pergunta:
E como era no barco, como era a viagem, a acomodação?
Resposta:
No navio de guerra americano a gente trabalhava. Quando embarquei aqui, eu era faxineiro. Eu era cabo faxineiro. Tomava conta do convés do navio. Naquela época o navio balançava, então todo mundo vomitava e a gente tinha de lavar. No convés tinha um tambor de gasolina e a gente jogava água e a turma chamava o juca lá. E quando chegava a noite, quando era meia-noite, a gente jogava aquele tambor no mar. Você não podia jogar do lado do navio, mas tinha de ir atrás do navio para jogar. E quantas vezes a tente indo jogar lá atrás do navio, devido à rotação do navio, dava a impressão que ficava um rastro verde no mar. Aquele movimento da máquina virava a água e formava um rastro verde. Eu pensava que aquilo era um navio de quem estava perdendo a esperança do regresso. Eu era metido a escrever poesias, mas depois que fui para a guerra perdi o pique, mas antes da guerra era metido a escrever poesias. Agora só faço acrósticos. Eu pego um nome. (Volume baixo)
Pergunta:
É bonito.
Resposta:
Esse senhor, quando completou 80 anos da imigração japonesa, eu fui para o Japão. Mas eu já tinha escrito isso, que foi quase a primeira, e eu conheci esse senhor. Antes, de tanto meus amigos falarem mal desse japonês, eu peguei e fiz isso. Quando cheguei no Japão eu peguei dele esse acróstico. Depois esse senhor me deu uma Kombi, que no Japão era metade de carga e metade de passageiros. Aqui não tinha isso, mas lá tinha uma Kombi que era metade de passageiros e metade de carga. Ele arrumou essa Kombi para me levar no templo, porque eu cheguei aqui e me perguntaram o que eu gostaria de conhecer no Japão. Eu falei que gostaria de ver o templo budista, porque eu sou budista e a turma brasileira, todo mundo vai para o Japão e o japonês fala "Tosã". Não sei o que é isso. Todo mundo que é budista fala em "Tosã", porque eles pagam passagem e têm condições. Mas eu não tinha condições e falei que gostaria de ver o templo. Eles arrumaram tudo para eu ver o templo. E quando cheguei aqui, o presidente era o Roberto Soares, então esse senhor telefonou para o Japão e quando cheguei no Japão esse senhor tinha tudo preparado para mim. Mas eu não sabia falar japonês. Eu fui, tem um nome japonês, mas é um lugar da religião. Eu cheguei lá e esse japonês tinha preparado tudo, os moços de um lado e as moças de outro e as moças jogavam pétalas de flores para mim. Eu comecei a chorar.
Esposa:
Ele e o pai, porque foi comemoração dos 80 anos da imigração japonesa. Foi oferecido para o pai dele e ele foi como acompanhante do pai, porque o pai dele gostaria de voltar à terra natal para rezar pela última vez uma missa para os pais. Então, ele ganhou essa viagem para o Japão e o Raul foi acompanhando.
Resposta:
Eu cheguei lá e eles já sabiam meu nome no hotel, estava tudo preparado. Eu não esperava isso, então fiquei emocionado. Eu falava: Sansei, eu não sou presidente da república, não sou nada para receber essa manifestação. Ele falava: Shitoro. Eu não sei o que é isso.
Esposa:
Ele não sabe falar japonês. Não sabe nada.
Resposta:
Eu chorando e ele falando. Sei que entrei lá chorando. Quando entrei tinha a diretoria do budismo lá sentada. Falava japonês, e eu não entendi nada. Ele pegou e deu um pergaminho para o meu pai. Eu fiquei sabendo que esse pergaminho, essa sociedade japonesa tinha dado de presente somente ao Ministro Kissinger, dos Estados Unidos, e meu pai a segunda pessoa a receber.
Esposa:
Depois dos 80 anos de imigração, todos os sobreviventes que ainda tinham condições de andar eram duas pessoas. Era o pai dele e um outro senhor, que ainda está vivo, mas não tem condições mais. Eram duas pessoas.
Resposta:
Eles deram uma medalha de ouro para o meu pai. Acho que ficou com a minha irmã, porque eu não vi. Eu recebi uma medalha de honra. Eu fiquei conhecido.
Esposa:
Agora volta para a guerra, porque você saiu do assunto. Ele desvia a história.
Resposta:
Eu fui para o Rio de Janeiro. No navio eu trabalhei como faxineiro, mas acontece que eu era cabo-faxineiro. Acontece que todo mundo arriou, vomitaram. Não agüentavam.
Esposa:
Sabe onde eles dormiam? No porão do navio. Os brasileiros foram embarcados no porão.
Pergunta:
Vocês foram separados dos norte-americanos?
Resposta:
Foram só brasileiros. Comigo foi o Décimo Primeiro do Segundo Regimento de Infantaria de Juiz de Fora, Minas Gerais. Depois foi o Primeiro Regimento de Infantaria do Rio de Janeiro. Esses dois faziam parte do segundo escalão. E foi também o Grupo Bandeirante que fazia parte junto com o segundo escalão.
Esposa:
Eles falaram que o navio, essa parte ficava lá embaixo, no porão. Os brasileiros foram todos no porão.
Resposta:
Porque tinha muita gente.
Esposa:
Eram não sei quantas mil pessoas. Era um navio que foi reformado.
Resposta:
Nós chegamos na Itália, em Nápoles e de lá nós embarcamos numa barcaça. Eu na barcaça quase chamei o juca.
Esposa:
Eles chegaram em Nápoles e aí deram alimentação para eles. Todo mundo estava até raquítico, de tanto que puseram coisas para fora no navio. Eles comeram, encheram a barriga, mas não falaram que eles já tinham de sair. Eles comeram porque estavam com fome, mas quando pegaram a barcaça era um tal de chamar o juca...
Resposta:
Porque barcaça balança mais ainda. Nós fomos para Livorno e de Livorno nós fomos para Pizza, porque lá tinha um acampamento do rei. O italiano fala bosque do rei. Era o lugar do rei se divertir. Ficamos lá para descansar. Todo mundo descansava, mas eu não descansava. Todo mundo foi dispensado, mas o capitão falava que eu tinha de pagar munição para a infantaria. Pagar é distribuir. Eu peguei um soldado, a munição, e fui distribuir para a infantaria.
Pergunta:
Vocês ainda não estavam na batalha?
Resposta:
Tínhamos chegado na Itália, estávamos descansando, distribuindo material. Depois nós fomos para o front. Nós ficamos acampados, mas já tinha tiros, essas coisas. Eu não sei por que eu sabia. Eu fazia tudo lá. O capitão Valmit Ericsen, filho de alemão, ele me tratava como se fosse oficial. Eu não gostava. Ele falava: Kodama, nós recebemos uma missão de tiro. Precisamos remuniciar as baterias. Precisamos, não; eu preciso, porque o senhor tem de mandar a mim. Ele me tratava como se fosse oficial. Quando foi para trocar, colocar metralhadora, tinha de desacoplar o capô do carro, porque tinha o suporte da metralhadora .50 giratória, ela era redonda e tinha quatro pés e você precisava adaptar no caminhão. Para você adaptar, você tinha de cortar um círculo para a metralhadora fazer o círculo. O capitão mandou fazer esse serviço. Depois desse serviço eu fui ferido.
Pergunta:
Como o senhor foi ferido?
Resposta:
Num bombardeio. Eu fazia a manutenção, carregava pedra, consertava estrada, fazia tudo. Tinha mais gente, mas tudo era eu. Um dia o capitão mandou eu fazer coleta e levar os soldados para tomar banho. Quando fui fazer a coleta de mantimentos, os soldados foram tomar banho... Enquanto eu estava esperando os soldados, nisso passou um jipe com um oficial e o motorista. Aí caiu uma bomba justo nessa hora. Eu fui ferido. Esse oficial foi degolado. Eu não sei como pegou a cabeça. O corpo ficou sentado no jipe, o motorista sumiu, e o corpo ficou sem cabeça, sentado. Eu queria sair mas não podia, porque atingiu a perna e eu não podia andar. Eu precisava sair dali porque já vinha outra, porque se eles sabiam que a gente estava ali, eles iam dar outro tiro. Eu saí rastejando e vi um dormente. Eu não queria perder nem a cabeça e o corpo, porque as penas que se danem, porque se eu ficar com a cabeça e o corpo eu estou vivo. Eu fiquei abraçado nesse pilar e veio outra bomba.
Pergunta:
Eram os alemães?
Resposta:
Sim. Aí veio a outra bomba. Aí veio o caminhão fazendo a coleta de soldados feridos. Os mortos eles deixavam lá, mas os feridos eles levavam. Eu fui nessa. Eu fiquei deitado na enfermaria e via gente gritando, chorando. Quem estava chorando não ia morrer, mas quem ficava gemendo, esse não passava a noite. Quando o soldado começa a gritar, ele não morre. A gente não ia doente. Expedicionário não ia doente. É tudo quebrado. Eu fui fazer exame, eu não sou doente. O corpo é bom, mas eu sou quebrado. Todo soldado expedicionário, a maioria é tudo quebrado. A cabeça funciona. Ele não é doente. É aleijado, é quebrado, por causa da guerra. Se fosse doente, era da cabeça. Mas a maioria, não sei por que o Lula mandou fazer exame de saúde para ver se a gente está doente. Soldado que foi para a guerra, nenhum.
Esposa:
Eles não querem entregar os pontos. Todos têm 80 e cacetada. Quando chega no desfile, o comandante de São Paulo manda colocar uma viatura para levar o pessoal. Eles brigam. Eles falam que querem desfilar, que não vão de caminhão porque não são aleijados. Ele tem 87, outro tem 85.
Pergunta:
O senhor tem 87? Com quantos anos o senhor estava na guerra?
Resposta:
Eu não fiz muito tempo. Fui em 1944 e no fim do ano estava na guerra, em janeiro fui ferido e já saí da guerra.
Pergunta:
E levaram o senhor para onde?
Resposta:
Fui para Pistóia e depois para Nápoles; de lá fui para os Estados Unidos, em Nova Iorque. De lá fiquei um tempo em Nova Orleans, em recuperação. De lá eu vim para Pernambuco.
Esposa:
Isso, depois que a guerra acabou.
Resposta:
De Pernambuco fui para a Bahia e de lá para o Rio de Janeiro. Fiquei mais tempo no Rio de Janeiro, recebi alta e vim para São Paulo.
Pergunta:
O senhor lembra de ter contato com alguma enfermeira brasileira ou eram só norte-americanas?
Resposta:
Só americanas. No exército brasileiro tinham muitas enfermeiras brasileiras e no hospital também. Mas tinha coisas que as brasileiras e as americanas queriam ser grande coisa. Faziam a gente de ignorante, de qualquer coisa. Eu quebrei o pau. Eu estava lá ferido e uma brasileira falou: Quem é esse japa? Eu dei uma batida na bacia do xixi, esparramou tudo. Eu era ruim.
Pergunta:
E tinha preconceito pelo fato de o senhor ser japonês?
Resposta:
Não. Ela queria ser a tal. Eu não gosto de falar, mas a maioria só tinha curso de enfermagem. Eu também tive curso de enfermagem como soldado. Nós tivemos, porque o Coronel Souza Carvalho, ele é um coronel diferente. Todo soldado era filho dele, branco, preto, japonês. Não tinha raça. Todos eram filhos dele. Eu estava de guarda, era cabo da guarda e não tinha ninguém, era eu e um preso. Eu pensei: Eu com um 32 na cinta e esse quartel, eu podia tomar esse quartel sozinho. Mas nisso desce o Coronel Souza Carvalho. Eu fiquei afobado porque não tinha guarda para pôr em forma para receber o coronel. Eu não sabia o que fazer. Mas ele também não falou nada. Ele passou e eu nem me apresentei, porque tinha de me apresentar como cabo, falar meu número. Mas ele não falou nada. Em vez de ele chamar a atenção do soldado, porque se ele está preso é porque teve má conduta, ele chamava de filho e dava conselho. Ele falava que não gostava dele preso.
Pergunta:
O que o senhor tinha feito?
Resposta:
O soldado. Eu era guarda. Em vez de ele chamar a atenção do guarda, para mim ele não falou nada, mas ele chamava o preso de filho. Tem um que ninguém ficou sabendo. Ele me batia no ombro e falava que eu valia ouro, porque todas as lições que eu fazia, ele me falava a mesma coisa. Eu ficava até esquisito. Quando olho a medalha que tenho, até choro. Quando falo desse coronel também choro. Se ele não fosse esse coronel, eu não seria um bom soldado. Porque quando eu não era soldado, eu não era brasileiro, era quinta coluna. Todo mundo me chamava de quinta coluna. Quando eu trabalhava em São Paulo, era motorista, entrava para pegar gasolina, porque era racionado, todo mundo chamava de quinta coluna e me mandava para trás. E tinha um guarda civil que me multou em 500 mil réis porque eu era quinta coluna. Aquele tempo não era como hoje. Depois que eu fui para o exército, que esse coronel me fez soldado brasileiro, eu não queria. Eu fui voluntário e eles não me aceitaram, então também não queria mais ficar lá. Eu comecei a me alterar, a ser mau elemento achando que iam me mandar embora. O coronel gostava dos maus elementos e tinha outro que também era assim. Nós dois recebemos a missão de fazer faxina, lavar privada. Ele queria descobrir o bom e o mau. Eu fiz o meu serviço direito e com dois meses eu fui promovido a cabo. Como fiz o que o coronel mandou, eu não ia fazer nada que prejudicasse o capitão. Então, quem gostava muito de se exibir, nas festas de gala, convidavam os expedicionários para apresentar a festa, ele ia a todas.
Pergunta:
O senhor acabou ficando pouco tempo na guerra?
Resposta:
Fiquei até janeiro de 1945.
Pergunta:
Depois que o senhor voltou para São Paulo o senhor voltou a trabalhar?
Resposta:
Não; saí do exército, porque era aleijado.
Esposa:
Ele foi reformado.
Resposta:
Eu fui reformado em 1946. Hoje vendo o negócio do Getúlio Vargas, ele dizia que os militares eram contra o Getúlio, mas todos estiveram na guerra. O povo dá razão a ele porque o povo não sabe. Eu fui integralista, da juventude brasileira. Em 1935 teve aqui na Praça da Sé um tiroteio. Era moço e fui parar em Presidente Prudente. Naquela época do Getúlio, o Plínio Salgado falou que precisava de tantos homens, mas o Getúlio não acreditou. Mas tinham muitos soldados da cavalaria do exército. O que aconteceu com esse Plínio Salgado? Ele foi exilado. Em Presidente Prudente tinha um ginásio e o diretor também era integralista. Depois passou um tempo, veio esse negócio do tiro de guerra e eu queria ir para o exército, mas meu pai não queria. Meu pai me colocou no tiro de guerra para eu não ir para o exército. Quando estava fazendo o tiro de guerra, eu também fui contra o diretor, porque quando eu era integralista eu era político, mas eu sou atirador do exército. Tiro de guerra, polícia militar, tudo isso era segunda linha. Eu era CPOR. A primeira linha é exército e o resto é segunda linha. Eu estudei para ser soldado do exército. No tempo que eu trabalhei, que eu vim trabalhar na loja, eu entrei numa escola.
Pergunta:
Quando o senhor voltou da guerra o senhor não andava?
Resposta:
Eu era capenga, era pendurado.
Pergunta:
Depois sarou?
Resposta:
Sim. Até quando fui lá fazer exame, falei que estava forte, tudo bem. Mas eu tenho um defeito. Por isso saí reformado.
Pergunta:
Mas o senhor feriu o braço e a perna?
Resposta:
Só a perna. O pé. Quando eu saí do exército, saí aleijado, eu queria que o exército me mandasse embora, reformasse, qualquer coisa. Porque se eu saísse, eu tinha de sair como segundo tenente da reserva. Eu queria sair, porque se eu saísse segundo tenente, eu ia ser despachante. Eu não tenho estudo, não tenho diploma, não tenho nada, mas eu com a patente de tenente, eu posso abrir um escritório. Eu queria sair e abrir um escritório para ganhar mais dinheiro. Agora não, estou ganhando mais ou menos.
Esposa:
O comandante dele o aconselhou a não sair, esperar a reforma, porque a maioria dos pracinhas que foram para a Itália foi dispensada na Itália. Acabou a guerra e todo mundo podia ir embora. Chegaram aqui todos ruins, porque ficaram neuróticos. Quando ouviam uma sirene saíam correndo, se escondiam. Eles ficaram perturbados. Chegaram aqui sem emprego, sem nada. Ficaram perturbados da cabeça, por causa da neurose das bombas e ficaram sem emprego. Ninguém veio oferecer emprego. Agora, os que estavam feridos, tiveram assistência médica e foram passando. Tanto é que os feridos foram os últimos a vir embora. Se eles estivessem bons, viriam embora. O comandante falou para ele não sair, para esperar a reforma. Ele ficou no hospital um tempão, machucado, até vir à reforma dele. Se ele fosse reformado, ele receberia algum dinheiro do exército.
Resposta:
Não sei em que ano eu fui convidado para voltar para o exército, mas ia voltar como segundo tenente comissionado. Eu pensei comigo e fui falar com o coronel. Eu não tinha nada com o comandante, mas o que ele falava, eu acatava. Ele falou: Você não é mais Raul Kodama. Você é outro Raul Kodama. Pode ser que você volte ao exército e se dê bem, mas tem uma coisa. Também pode ser que eles mandem você embora sem direito a nada. Do jeito que você está, você está bem para o resto da vida. Então eu não voltei.
Esposa:
Ele ganhava pouco.
Resposta:
Agora estou lendo os livros e pensando que aquele soldado da guerra veio para o Brasil prejudicado pelos outros. Os daqui são na maioria e os de lá são maioria. Todos os soldados que foram para a guerra tinham 5 pontos a mais. Se você prestar exame e você sai em primeiro, mas eu saio em segundo, e, por ser expedicionário, a primeira vaga é minha. No exército existia a rivalidade.
Pergunta:
O senhor lembra de, na guerra, eles darem algum remédio para vocês?
Resposta:
Não davam. A maioria falava que o soldado ia para a guerra, que faz isso e aquilo porque eles dão veneno, não sei o quê. Mentira. Não deram nada. Eu só tomava licor ou vinho que o italiano me dava. O italiano tinha o vinho velho e o vinho novo. Eu, como não bebia vinho, eles me davam licor, porque o licor era deles. Eles guardavam. Eles comiam pão com esse vinho. Para ninguém eles davam, mas para mim eles davam. Mas porque eu recebia ração A e B. E dava para os italianos.
Pergunta:
O que era a ração A e B?
Resposta:
A ração A tem biscoito, café, bolacha, açúcar, sal, tudo numa latinha. Eu dava isso para os italianos e eles colocavam a massa que eles tinham e faziam broa para mim.
Pergunta:
Essa ração era sua ou para distribuir para os soldados?
Resposta:
Para todos os soldados. Para mim davam mais porque eu viajava muito. Toda vez que eu saía do acampamento, eles me davam ração. Eu pegava essa ração e dava para o italiano e eles me davam broa.
Pergunta:
A ração B tinha o quê?
Resposta:
Arroz, feijão, tudo cozido. Essa italiana, tinha um acampamento na casa dela. Nós tínhamos deixado nosso caminhão no bosque e todo dia cedo eu ia fazer o caminhão funcionar, porque às vezes congelava. Precisava colocar um líquido na água para não congelar a água do caminhão. Eu chegava cedo, preparava o caminhão para a jornada, porque em qualquer emergência o caminhão precisava sair. Lá a italiana me mostrou um buraco, onde ela dava comida para o marido, que ficava escondido.
Pergunta:
Por que ele ficava escondido?
Resposta:
Porque os alemães queriam levar o marido para a guerra. Ela não queria que o marido fosse, então ela enterrava o marido e ela dava comida para ele. Quando ela me mostrou, eu não perdi a cabeça, porque o Coronel Souza Carvalho falava para os soldados: Vocês já pensaram se o Brasil estivesse na situação em que está a Itália, você gostaria que alguém se aproveitasse da sua irmã, da sua mãe, porque a maioria faz isso? Se você não gostaria, você também tem de respeitar toda a família. Eu fui um deles.
(parece que estão vendo fotos e estão longe do gravador)